domingo, 16 de setembro de 2012

Minha nada interessante vida – parte 2: Meninos não choram


Diz a lenda que os gatos tem sete vidas. Mesmo quando expostos a situações de risco extremo, eles conseguem escapar ilesos como se nada tivesse acontecido. Pois bem, pode ser que nós, meros mortais, não escapemos da morte assim tão facilmente, mas acredito que também tenhamos mais de uma vida. E o que separa uma vida de outra não é, necessariamente, uma situação de risco extremo, mas uma mudança que nos transforme profundamente.

Seguindo esse raciocínio, considero que já tive pelo menos 6 vidas. A primeira delas, evidentemente, começou quando minha mãe me apresentou ao mundo. A segunda delas, contarei aqui hoje. Teve início no primeiro dia de aula...

Teve uma infância solitária, quase sem contato com outras crianças. Por morar longe da zona urbana e pelo difícil acesso à escola, sequer era cogitada a possibilidade de cursar um “pré-escolar”: os adultos decidiram que entraria direto no ensino fundamental, a extinta primeira série. Quando completou 6 anos de idade começaram os rumores de que no começo do próximo deveria ir pra escola. A ansiedade já tomava conta e desde então ficava a imaginar como seria aquele universo novo que todos se empolgavam ao falar. Tão logo começou a ter as primeiras aulas de leitura com as tias professoras, (aulas) reforçadas em casa mais tarde pela mãe. Não demorou muito para que pegasse o jeito e começasse a ler tudo que via pela frente.

No começo do ano seguinte já estava mais do que preparado para ir à escola. Segundo as tias, tinha leitura e escrita avançada para uma criança daquela idade. Porém, com apenas 6 anos da idade, a escola poderia não permitir que fosse direto para a primeira série. Havia uma lei que não permitia que crianças de 6 anos, que apenas completariam 7 no segundo semestre, ingressassem diretamente no ensino fundamental. Então, por causa de 7 dias, tivera que aguardar por mais um ano para ir para a escola.

Enquanto os meses não passavam, foi aprimorando a leitura e a escrita. As brincadeiras mudavam. O “Show do César” já não tinha mais a mesma frequência, sendo substituído pela leitura de qualquer revista que achasse pela frente. Os irmãos, já maiores, podiam brincar e ajudavam na distração, mas ainda não era o suficiente: queria is pra tal da escola.

Finalmente, eis que chega 1996. A escola envia a lista de materiais, agora era pra valer. Foi às compras, escolheu o caderno, os pais compraram tudo o mais que fosse necessário. Tudo bem simples, mas nem sabia e tampouco se importaria. Exibia com orgulho os seus materiais. Com uma emoção que não cabia no peito, arrumou a mochila, vestiu o uniforme, acenou para os irmãos e entrou no carro. Já ia para o seu primeiro dia de aula, também o dia que começaria uma nova vida.

Quando avistou a escola, percebeu que teria de entrar sem os pais e ficaria sozinho junto de estranhos pela primeira vez na vida. Sentiu medo. Ficou inseguro e começou a ficar pálido. A mãe olhou para o branco de trás, com uma cara de piedade e deu um sorriso sem graça, como quem sentisse pena por ter de entregar o filho para a escola. Ainda com a cabeça a mil, ouviu a mãe olhar para o pai e perguntar: “será que ele vai chorar?”. Atento ao transito com intenso tráfego de crianças, respondeu sem pensar muito: “meninos não choram”. Gravou aquelas palavras e já sabia que não deveria chorar, mesmo sem saber o que poderia aborrecê-lo a tal ponto.

Despediu-se e entrou pelo portão. Foi conduzido até a sua sala, escolheu um lugar e sentou, aguardando a professora chegar. Olhou para o lado com certa timidez. Tantas crianças juntas era uma novidade intimidante. Algumas choravam, quem teria as maltratado? Estava assustado. Logo, a professora entrou pela sala. Chamava-se “Tia Edna”. Mas ora essa, “ela nem é minha tia...”. Aquietou-se. Limitou-se apenas a responder o seu nome quando a “tia” perguntou.

Mais tarde, ainda no primeiro dia de aula, uma brincadeira foi promovida: a professora colocava figuras de frutas no quadro-negro e os alunos tinham de dizer o seu nome. Levantava a mão quando conhecia a dita cuja, mas sempre havia um mais esperto. Até que, de tanto insistir, foi percebido pela professora. “Que fruta é essa, César?”. Encheu o peito e disse, baixinho: “é ‘murango’, tia”. “Fala mais alto que eu não ouvi!”. Com toda a simplicidade e inocência que cabem a uma criança, repetiu. “É MURANGO, TIA”.

Com um sorriso no rosto, olhou para o lado como quem quisesse uma aprovação dos colegas mais participativos e aparentemente tão sabidos. Não teve sucesso: já a garota do seu lado, logo a mais bonita, Letícia, soltou uma risada debochada: “ele nem sabe falar, é morango, e não ‘murango’!”. Sentiu-se desprezado. Pela primeira vez teve vontade de chorar, mas lembrou-se das palavras do pai e manteve-se firme. A professora sorriu-lhe e disse “tudo bem, você está de parabéns, é isso mesmo”.

Com a primeira folha quase cheia, ouviu o sinal tocar: a aula tinha acabado. Não entendeu o que era aquilo. A professora disse, “até amanhã”. Viu todo mundo sair correndo, levou um susto, juntou suas coisas e fez o mesmo. O primeiro dia de aula tinha acabado.

Do lado de fora, encontrou a mãe de braços abertos, emocionada ao reencontrar o filho após algumas horas. Tão logo se virou para o pai e disse: “viu, eu não chorei”. Sentiu-se aliviado por não tê-lo decepcionado, como se aquilo fosse muito importante. Ganhou um cafuné, entrou no carro e foi pra casa, ficando a esperar pelo dia seguinte, e pelo próximo e pelos seguintes. Uma nova vida estava começando.

sábado, 8 de setembro de 2012

Minha nada interessante vida – parte 1: O Pequeno Gafanhoto


Depois de adulto, 3 anos de idade podem fazer pouca ou nenhuma diferença. Mas quando criança, 3 anos pode ser um abismo. E foi justamente esse abismo que me separou do meu irmão quando éramos pequenos. Quando eu começava a minha primeira infância, ele ainda era neném. Quando eu já começava a mudar as brincadeiras, era a hora dele começar a usar os meus primeiros brinquedos que aquela altura já não me interessavam mais.

Por essas e outras, tive uma infância muito solitária. Longe da civilização e da sociedade, tinha apenas a minha própria companhia nas longas manhãs que se sucediam. Nem TV havia em casa. Raramente, quando visitava a minha avó, assistia um pouco do “Programa da Xuxa” ou da legendária “TV Colosso”. Ficava maravilhado com os desenhos animados e programas, mas via aquilo como algo inatingível, e sentia-me privilegiado por poder assistir, ainda que raramente, aqueles programas cheios de cores e sempre tão animados.

Como não tinha nenhum passatempo ou companhia para brincar, e ainda sem idade para ir à escola, não havia muito que se fazer, salvo quando a mãe gritava para ir olhar os irmãos mais novos. De resto, tinha um dia inteiro pela frente. Foi aí que, inspirado nos programas de TV que eventualmente assistia, comecei a “apresentar” o meu próprio programa, “O Show do César”.

O quintal fora o palco escolhido; o pé de Jamelão, o cenário principal. Fazia mágica, entrevistava convidados imaginários e também os bichos que apareciam no quintal. Fazia adivinhações com a plateia surreal, comandava as gincanas e brincadeiras incríveis e emocionantes. Até desenhos animados havia no programa: inventava histórias com os brinquedos e as narrava especialmente para os espectadores (palavra esta, aliás, que não conseguia pronunciar corretamente, deixando-me envergonhado diante da plateia).

O “programa” durava a manhã toda. Era diversão que não acabava. A mãe começou a suspeitar que eu pudesse estar ficando louco. E nem a poderia culpar, coitada: afinal como uma criança passava a manhã inteira falando sozinha como se houvessem milhares de crianças ao redor? No fim das contas, ela acreditou que havia um anjo conversando ali comigo, e certa vez até disse que gostaria de participar do programa. Com a esperteza de uma criança de 5 anos, tratei de dizer logo que não seria possível, pois era uma programa só para crianças e não era admissível que adultos participassem.

Vida de apresentador cansa. Quando a mãe chamava para o almoço despedia-se dos convidados e encerrava o programa. Depois de comer, tirava um cochilo gostoso, e em seguida ia pro outro quarto para escutar rádio com a mãe, enquanto ela ficava a costurar e a cuidar dos irmãos. Prestava atenção nos causos que eram contados no rádio, mas não descuidava do relógio, só pra não deixar passar a hora em que o pai chegaria.

Mal sabia olhar as horas, mas sabia que quando o ponteiro maior e o ponteiro menor ficassem sobrepostos, era a hora de o pai chegar. E saía correndo para o portão, só pra ir recebê-lo e roubar-lhe um abraço. A tarde ainda era grande e gostava quando o pai, depois de tomar banho, pegava um papel velho para fazer uns desenhos.

Tudo aquilo era muito divertido. Uma vida tão simples e até rudimentar, mas feliz. Às vezes tenho vontade de voltar uma ou duas décadas e congelar aquele tempo onde era possível ser feliz entrevistando passarinhos e sendo amigo de um pequeno gafanhoto. Sem preocupações, sem angústias, alheio a todo o mal que mundo pode causar. Uma vida muito simples, sem enfeite nenhum. Ah, se eu pudesse...


Antes das seis

Inusitadamente, parei para assistir Caldeirão do Hulk hoje a tarde e me surpreendi com um inusitado pedido de casamento no palco do programa, ao som de Velha Infância (Tribalistas). Muito bacana o quadro e muito bonita a história do casal.

São casos assim que ainda nos leva a acreditar que o amor realmente existe e nos motiva a continuar a nossa busca. Afinal...

"Enquanto a vida vai e vem,
Você procura achar alguém,
Que um dia possa lhe dizer:
-Quero ficar só com você

Quem inventou o amor?





Um filme, uma frase (6)

"Talvez nenhum de nós realmente entenda o que passamos ou sinta que tivemos tempo o bastante.”

Kathy, no filme “Não Me Abandone Jamais”


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O Lixo (Luis Fernando Veríssimo)

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Conto Improvável

Já era noite, apenas mais uma, mesmo sem saber que não seria. Decidiu sair, assim sem rumo. Apontou pro norte e disse, aqui vou eu. A cabeça estava cansada, um ar fresco lhe faria bem. Observava cada detalhe daquele caminho já feito e refeito tantas vezes, porém só agora descoberto.

Sem fazer muito desdém logo se engraçou com umas folhas que caiam secas graças ao inverno que muito tarde ainda estava chegando. Chutou uma tampinha que encontrou pela calçada ao mesmo tempo em que se atentou a duas crianças debruçadas sobre uma janela. Pensou em tudo que faria diferente se tivesse uma segunda chance. Ah, se pudesse ser menino de novo...

Ouviu um som ao fundo e decidiu por ir atrás. Era Blues. Sentiu no furor de sua alma a solidão que o Blues proporcionava, somado ao sentimento de aventura e liberdade: quis botar o pé na estrada e partir pra tão longe quanto fosse possível. Aproximou-se. Cauteloso, entrou, escolheu o seu canto, contido, sem chamar muita atenção. Apreciava o bom som. O Blues era isso, era poder viver de forma digna, era se desprender do mal, da impotência, poder lamentar.

Não foi preciso nenhum estímulo para entrar na onda. Já estava naquela “vibe” e viu a sua vida em reflexos. Sentiu raiva de si mesmo: estivera pensando na Tulipa novamente, sim aquela última. Se deu conta de que a danada sobreviveu a mais uma seca e talvez voltaria agora ainda mais cheia de vida. O que tem essa maldita, afinal? Sabia que no fundo não lhe servia, pois não gosta de dividir as coisas e nem de nada usado, muito faz questão do novo, daquilo que lhe é exclusivo.

Bastou um momento de fraqueza para perceber que nada havia mudado. Ou olhando sob outra ótica, que tudo havia mudado. A maturidade trazida pela idade que carrega foi lhe modificando e consumindo aos poucos. Lembrou-se das mensagens que outrora enviava de madrugada, mas que com o tempo cessaram. Lembrou dos grandes amigos que já fizera mas que vinham se afastando com o tempo. Sentiu a falta deles e até esboçou um plano, mas sabia que na manhã seguinte já haveria de ter fracassado. Pensou mais uma vez em tudo que poderia ter sido, mas não foi.

Na saideira, ouviu “Ai imagina quando eu chegar no céu aí mesmo é que eu vou gostar”. Despediu-se do som da gaita e continuou o seu caminho: Blues, alma e solidão. Sobre fracassos, incertezas e esperança. Naquela noite percebeu que é possível viajar em sair do lugar.

domingo, 25 de março de 2012

A última flor

O outono acabara de chegar, e mais uma vez não trouxera a paz. Algo o incomodava, ainda que não soubesse exatamente o que seria. Precisava encontrar um culpado. Com seus vinte e poucos anos pensou que talvez fosse a hora de deixar o seu jardim de lado: concluiu que aquilo só lhe trazia angústia e sofrimento. Às vezes, é bem verdade, trazia-lhe dozes de alegria e uma felicidade momentânea. O simples fato de ficar ali, cultivando-as, esperando por dias melhores, alimentando esperanças, ansiando o tempo passar.

Começou a cultivar o seu jardim por volta dos sete anos, logo quando se pôs a frequentar a escola. Na verdade mal sabia o que fazia. Com uma ingenuidade e pureza de alma que só uma criança poderia ter, apaixonou-se por uma Margarida. Em meio a tantas Margaridas, uma lhe era especial e fazia o seu coração bater mais forte. Por não entender, sentiu vergonha daquilo. Confuso, repulsava aquele amor inocente e singelo.

As Margaridas, porém, são sensíveis. Ora, pois, não sobrevivem por muito tempo, e no início do ano seguinte aquela flor especial seria substituída por outra Margarida, e assim seria no ano seguinte, e no próximo e assim enquanto a sua inocência o permitisse.

Até que um dia, já no início da adolescência, com os hormônios à flor da pele, se cansou das Margaridas e resolveu cultivar uma Rosa. Desde o início cuidava dela com muito carinho, até que finalmente florescera: vermelha, vistosa, cativante, apaixonante. Flor mais bela não lhe havia. Cego, não tinha olhos para mais nenhuma criatura: acabou por abandonar as outras flores, deixando que a Rosa, a egoísta Rosa, reinasse soberana em seu jardim.

Jamais sentiu nada igual. Tinha ciúmes até do ar que a Rosa respirava, mas não tinha coragem de declarar a sua paixão. Sofria. A Rosa, boba que não era, sabia daquele amor doentio e fervoroso. Por vezes virava-lhe a cara e o maltratava com seus espinhos. E, com a maldade que só cabe às rosas, alimentava aquele amor, seduzindo-o dia após dia, mesmo sabendo que jamais o corresponderia.

Quando chegou o dia em que mudou de colégio começou a despertar. O ambiente novo o fez pensar no seu jardim e perceber o quanto a Rosa e seus espinhos o fizeram mal. Percebeu que ela já não era tão vistosa e que não merecia sua atenção. Deixou de cuidar daquela Rosa e, quando ela já estava por morrer, decidiu arrancá-la de uma vez da sua vida.

Olhou em volta e se deu conta de que o jardim estava vazio. Sentiu uma mistura de alívio e liberdade. Naquele momento apenas desejou nunca mais passar por aquilo novamente. Daquele mal estava vacinado, e prometeu para si mesmo que flor com espinhos não cresceria mais em seu jardim. E talvez flor nenhuma. Percebeu que deixar o jardim vazio poderia não ser tão ruim, e talvez fosse mesmo a decisão mais inteligente para quem não quisesse sofrer.

Assim o fez, por três longos anos, até que chegou o dia em que teria de mudar de vida mais uma vez. Com tantas mudanças, nem se dava conta que seu jardim, aos poucos, ia florindo novamente.

Quando percebeu já estava lá, a cultivar violetas, petúnias, cravos e tulipas. Dessa vez, nenhuma chamava a sua atenção de forma especial: cuidava de todas com o mesmo carinho. Ainda tinha medo de espinhos, e por isso foi incapaz de perceber a Azaléia que brotava no canto e floria cada vez mais bela com o passar dos dias. Com a ingenuidade juvenil e a pureza da alma que lhe pertencem, a Azaléia se encantava pelo Jardineiro. Um amor que passou despercebido e abafado pelo medo de espinhos passados.

A lei daquele canteiro era não se envolver. E o fazia bem. Porém, por mais que resistisse, chegou o dia em que o Jardineiro cedeu e finalmente se envolveu com as Orquídeas. Ficou encantado diante de tanta beleza e sensualidade, mas se incomodava com o seu ar superior e por isso sempre acabava arrancando todas do seu jardim.

Não demorou muito, descobriu que certa Tulipa lhe chamava atenção. Cativante, miudinha, charmosa que só ela. Partiu seu coração. Porém agora estava mais maduro e controlou seus sentimentos, sabia que não era a hora. Alimentava aquele amor platônico e contentava-se com a paz de vê-la diariamente.

Certa vez desconfiou daquela Azaléia relutante e reluzente que chamava atenção mais ao canto. Percebeu que ela tinha ciúme das outras flores. Até que lhe agradava um pouco, mas preferiu deixá-la ali, como a esperar pelo momento certo. Imaginava que a teria quando bem quisesse, e por isso resolveu aguardar um tempo para dar à Azaléia o destaque que merecia.

Nesse meio tempo, deixou-se levar pelos encantos das Acácias e se engraçou com virtuosas Camélias. Certa vez se aborreceu com a frieza e indiferença da Hortência, mas nada que se compare à sua desilusão com a Petúnia, que não floriu naquela Primavera.

Em um Inverno, os ventos trouxeram sementes de Violeta. Receoso, não sabia o que esperar, mas diante de tanta simpatia o Jardineiro acabou por ceder-lhe um espaço em seu jardim. A Violeta ficou admirada com tanta bondade e retribuía à altura: lealdade única, tornou-se o seu braço direito. Dava dicas de sobre como cuidar das outras flores, até o dia em que se apaixonou pelo Jardineiro. Passou a inventar dores e até mesmo novas cores, só para mantê-lo por perto; ele, tão ingênuo, não correspondeu. Quando já tarde, apenas viu, de longe, a Violeta chorar copiosamente no dia da sua despedida.

O Jardineiro se sentiu mal por fazer aquela flor sofrer. Lembrou-se então da Azaléia, a quem provavelmente também já causara algum sofrimento, e decidiu que deveria buscá-la para o centro do canteiro. Mais uma vez, era tarde. A Azaléia preferiu continuar no canto e rejeitou o que de melhor o Jardineiro tinha para lhe oferecer.

Foi uma nova queda. Ficou arrasado e, sem saber o que fazer, mais uma vez deixou seu jardim de lado por uns tempos. Exceto a Tulipa, a quem fazia questão de cultivá-la. Continuava lá, fervorosa, embora gostasse do frio. A Tulipa era resistente e durável. Já não tinha dúvidas que era uma flor especial. Mas não tinha coragem de dizer isso a ela, pois temia perdê-la assim como a Azaléia. Sustentava-a, apenas.

No último Verão, uma ventania trouxera uma semente de Girassol. Mesmo com olhos apenas para a Tulipa, o Jardineiro resolveu lhe dar uma chance. Porém o Girassol é espaçoso e exigente, carecia de muitos cuidados, além do que tomava muito do seu espaço. Sufocava o Jardineiro. Não demorou muito, tirou-lhe do jardim para, finalmente perceber que ali só havia espaço para a Tulipa.

A Tulipa era a sua motivação, o seu propósito de viver. Não reparava, mas ela, ainda que sem espinhos, fazia-lhe quase tão mal quanto aquela Rosa de uma década atrás. Só que agora o Jardineiro tinha a exata noção desse mal. Sorrateiramente, tentava trazer a Tulipa para o centro do canteiro. Se ali chegasse, garantia a si próprio, que jamais a permitiria sair novamente. Faria dela a flor mais feliz do mundo.

Dia desses, a Tulipa confessou-lhe que iria embora. Sentiu-se derrotado. Ficou revoltado. Disse que ia destruir o seu canteiro e que nunca mais há de mexer com flores. Concluiu que no final das contas, não sabia nada sobre elas. Ingratas, tomavam muito do seu tempo e pior, dedicação nenhuma era o suficiente. Não havia retorno, nunca era correspondido.

Estava desiludido. Percebeu que todo esforço havia sido em vão. Fez o possível para proteger seu jardim do mundo, mas viu que de nada adiantou: por mais que o quisesse isolar e fazê-lo um lugar diferente, esquecia-se das noites escuras e estranhas que colocavam tudo a perder. Na escuridão o jardim ficava desprotegido e desamparado. Simplesmente não podia protegê-lo das pestes mundanas. 

E assim a Tulipa foi a última flor do seu jardim. Agora tinha de se acostumar com a ideia de ver a Tulipa indo embora para se fixar em outros canteiros. Sabia que deveria mesmo deixá-la ir. Seu coração mais uma vez ficará partido, e o jardim, vazio.

Até que a vida lhe prove o contrário.